racismo

Onde estão os negros?

Na minha infância e adolescência não procurava a razão de ser a única rapariga negra na turma, porque seguia apenas brancos de cabelo escorrido no youtube ou porquê não haver negros nas publicidades portuguesas.

Nunca coloquei em causa onde estariam os negros porque o ambiente em que cresci era branco e querendo ou não, moldamos o que somos de acordo com o que assistimos, ouvimos e lemos. A questão surgiu veemente quando fui ver Avenida Q e eu era a negra da sala. Onde estão os negros no teatro? A dúvida foi se alimentado em situações equivalentes nos restaurantes, nas salas, no que assistia, no que lia, no jornal e atingiu o máximo numa conversa sobre o livro da Rupi Kaur e peças de teatro com uma senhora da faculdade. Onde estão os negros?

Há uns dias estava no cinema e vi um comercial em que a menina era semelhante a mim e a mãe era branca com o cabelo ondulado. Por 10 anos sempre assisti as mesmas Matildes de Cascais na TV e agora vi uma Taís? Ademais, um tempo depois descobri a série Still Star Crossed com um rei negro e princesas negras. Wait, what?

Encontrar negros em publicidades portuguesas, uma série em que princesas são negras e não escravas ou empregada doméstica deixa-me de coração mais plácido, as crianças de hoje crescerão sendo representadas de formas e cores diferentes. 2017 está abraçando a diversidade!

T.

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Não É Mulata, É Negra

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Há uns meses venho pensando sobre a minha negritude e de como poderia expressá-lo num novo vídeo mas falta-me tempo. Assim sendo, resolvi fazer um post sobre um lado do tema (vai haver muito disso este ano, post primeiro e mais tarde vídeos, espero que compreendam).

Para os negros claramente sou parda, para os brancos sou preta ou mulata. MULATA. Ignorância de muitos e até eu mesma no começo da minha colérica adolescência, mulata é originária de mula que significa “animal híbrido”. Esse termo era usado para designar filhos de escravas com os senhores e está relacionado com o comércio de escravos. Mulata é inquestionavelmente racista para mim e receio que nunca pude escolher um conceito correcto por causa dessas vozes. Cresci com esse mindset sobre as minhas características e nunca ninguém me perguntou o que eu achava.

Há um tempo um dos meus bully apareceu, o Rafael. Ele andava sempre smoking with the cool kids, fazendo da suas até que chegou a minha vez,“preta do cabelo queimado!”, começou. Penso que foi no Verão de 2015, voltei a cidade do fim do mundo cheia de preconceitos que só me traz péssimas memórias, no Alentejo. Encontrei esse mesmo rapaz na famosa feira de S. João trabalhando. Ali mesmo, sendo atendida por ele, um click na minha memória e na dele. A sua expressão mudou. Eu sabia, ele sabia e não permiti que me fizesse sentir um lixo. Porquê sentiria?

O negro sempre foi associado ao que é malicioso,”negro tem raiva no sangue”, parece haver resistência em usar a palavra. Primeiro porque se tem esse valor negativo, as pessoas não querem ofender e já vem aí um “moreninha”; segundo porque descrêem a hipótese de realmente haver negros com o mesmo poder aquisitivo e joga no ar “mulata” só para facilitar. Essa identidade negativa do negro é uma barreira para as pessoas saberem que: não é morena, amarela, nem mulata. É negra.

T.

A escola perante uma agressão física

Carrego esta mágoa há algum tempo, é algo que marcou a minha vida e logo no dia dos meus 18 anos. Acho que as pessoas de fora e até o agressor não têm noção do quanto uma acção pode danificar o outro indivíduo.

A razão de ter deixado Évora foi porque uma funcionária racista agrediu-me, admitiu na presença da minha mãe, da directora da escola e não fez nada. Havia câmeras e não fizeram nada. Ainda não consigo falar sobre isso sem chorar, sem ter raiva, sem ter a garganta entalada. Todos os professores acreditaram nela, todos os alunos acreditaram nela, a polícia acreditou nela menos em mim com provas. A minha directora de turma apenas disse-me para calar-me, só isso. Senti-me tão rebaixada, sem voz, humilhada. Entretanto descobri quem eram os meus amigos e estou grata por ainda estarem comigo.

O quanto já sofri de racismo naquela cidade é inesquecível e o pior deles foi agressão, é algo que ainda estou tentando cicatrizar mas levará anos como as outras. O conselho que posso dar é não responder com violência, é nem se quer responder porque são gente com QI baixo, ignorantes. Não estou a dizer para não lutar pelos seus direitos mas para não descer ao nível deles.

Évora danificou-me, Gabriel Pereira danificou-me.

É por ser negro?

No meu primeiro dia na capital, o meu irmão e eu fomos ao Colombo almoçar, enquanto isso ele contou-me 2 episódios que lhe aconteceu. Apressado para apanhar o autocarro uma senhora viu-o em tal agitação que fugiu dele, na segunda vez o meu irmão foi pedir uma informação e a jovem também correu assustada. Ele disse-me que de certeza não iria acontecer-me o mesmo porque sou rapariga e tenho cara de 15 anos.

Num dia como os outros, como não tinha aula no 2 tempo fui ler um livro no Jardim da estação. 20 minutos depois sentou-se uma idosa no banco paralelo ao meu e durante toda a minha leitura observou-me. Levantei-me, arrumei as minhas coisas e fui-me embora mas entretanto ela chamou-me e disse, “muito bem, não fuma, não rouba, grande personalidade”. A questão que veio-me a cabeça era qual seria o motivo desse comentário “é porque sou mulata? Os negros são o símbolo da marginalidade?”. Não cheguei a nenhuma conclusão.

Alguns dias depois, estava perdida e fui pedir informações, apareceu uma senhora que ignorou-me, não olhou para mim, apertava a mala como se fosse a sua vida e disse “não sei de nada, não moro aqui” mas quando falei que estava a procura da PSP ela deu-me indicações bem apressada e sem olhar. E novamente, foi porque sou mulata?. Com o que aconteceu ao meu namorado, cheguei finalmente a uma resposta. Não é pela cor da pele, é mesmo para se protegerem e não dar atenção à estranhos. Cheguei a essa conclusão porque o meu namorado veio passar um fim-de-semana na minha casa e quando foi embora no domingo ele perdeu-se e como qualquer pessoa que não conhece uma cidade pede indicações,  a senhora desatou a correr. Sinceramente ouvi tantas coisas de Lisboa, tão temida e perigosa, que nada é verdade mas sempre tem que ter cuidado por ser uma cidade grande, Lisboa é só isso. Uma cidade grande.